segunda-feira, 3 de maio de 2010

A Rosa Púrpura do Cairo, Cultura de Massa e Alienação


O filme A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo) conta a história de Cecília. Uma mulher casada que vive no início do século XX e sofre constantes humilhações do marido. O cinema era um dos poucos meios de diversão e Cecília passa a frequenta-lo todos os dias, diversas vezes ao dia.

É importante perceber no filme o poder de influência da comunicação em massa e relacionar com a teoria da agulha hipodérmica descrita por Harold Lasswell que defende a ideia de que o receptor da mensagem é passivo no sentido que não envia mensagem de volta ao receptor.

Diferentemente, no filme, Cecília, depois de várias sessões de cinema passa a interagir com o filme. Chegando a acreditar que personagem do filme está apaixonado por ela. Segundo Theodor Adorno, os meios de comunicação em massa como a TV e o cinema, nos distanciam da realidade, nos apresentando uma realidade fictícia, ilusória e, portanto, alienante.

Para Adorno, a cultura de massa é capaz de mudar nossa percepção. Ou seja, faz-nos ter uma percepção mais superficial realidade, afastando-nos de nossas capacidades reflexivas e do pensamento crítico e analítico. No filme, não só Cecília passa a ter os personagens do filme como reais, mas toda a sociedade, pois todos estão submersos na cultura de massas.

Porém, no filme percebemos que a vida de Cecília muda totalmente depois que ela passa a assistir tantas vezes ao mesmo filme. Cecília deixa o marido, sai de casa, perde o emprego, e mesmo assim está feliz. Ela está motivada pela paixão que nutre pelo personagem de um filme que, passa a fazer parte do seu cotidiano.

Uma das críticas feitas por Umberto Eco nos diz que o cinema, assim como toda a Cultura de Massa, estimula o nível social de nossa atenção, afastando-nos de nossa capacidade de aprofundamento e reafirmando-nos, a todo instante, uma série de valores da moral burguesa.

O filme é ótimo para percebermos como a sociedade é influenciada pelos meios de comunicação. E como o comportamento das pessoas pode mudar depois de estarem imersas na cultura de massa.

Por Jurdiney da Costa Pereira Junior

Livros:

LASSWELL, Harold. A estrutura e a função da comunicação na sociedade. In: COHN, Gabriel. Comunicação e Indústria Cultural. São Paulo: Nacional, 1997.

ADORNO, Theodor. Televisão, consciência e indústria cultural. In: COHN, Gabriel. Comunicação e Indústria Cultural. São Paulo: Nacional, 1997.

ADORNO, Theodor. Indústria Cultural e Sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

ECO, Umberto. Apocalípticos e Integrados. Ed. Perspectiva


Filme:

The Purple Rose of Cairo. 1985
Dir. Woody Allen

7 comentários:

  1. Adorei o texto, Jurdiney!

    Gostei principalmente da maneira como você relacionou o filme aos autores de base do nosso curso. Tinha até me esquecido da "teoria da agulha hipodérmica" do Lasswell e me lembrei em alto estilo! rsrs

    Vou acrescentar esse filme na minha listinha de pendências por que ele parece ser realmente muito bom!

    Muito bom! Parabéns!
    Débora.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Ótimo texto!
    É exatamente o que acontece atualmente. O conteúdo que a mídia nos oferece,é enviado de maneira tão pronta que não há necessidade alguma de reflexão ou capacidade de resolução de conflitos.

    Mesmo hoje em dia, havendo uma maior possibilidade de interação com os meios, os espectadores apenas recebem as mensagems de forma passiva, assimilando apenas o conteúdo e na maioria das vezes não formando opinião. A teoria de Lasswel se reafirma e se mostra cada vez mais atual. Um bom exemplo, são os fimes americanos que, cheios de clichês, nos são apresentados de forma 'mastigada' como se não fossemos capazes de acompanhar o 'time' da história; diferente dos filmes Europeus, que são criticados as vezes por exatamente possibilitarem reflexão e diferentes olhares do público.

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  4. eu vi esse filme. o vi pelo apreço que tenho por Woody, confesso que achei ela, Cecília, um tanto louca/sofrida e deprimida. Como muitas pessoas que levam uma vida não tão agradável e encontra refugio em algo.(no caso dela. o cinema, o filme, o mesmo filme. assim podemos dizer). Mas queria ter essa visão, da alienação que estamos todos imergidos.quando consumimos e aderimos a midia e o que é imposto por ela.

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  5. Rosa purpura do Cairo é a decisao que uma mulher comum deve fazer entre a fantasia e a realidade. A triste America da recessao, só possibilita que Cecilia fuja de seus problemas quando confronta a tela do cinema, verdadeiro espelho que levará essa Alice dos anos de depressao ao mundo das maravilhas. Sua situação não é unica, quantas Cecilias tiveram qeu se refugiar nos cinemas pra fugir de uma realidade perante a qual somos impotentes? Um truffault que se refugia no cinema pra esquecer a ocupação nazista? ou um brasileiro que se torna impotente face a uma decisao do STF que perpetua a impunidade no pais? O cinema tem sua função anestésica , e que melhor canção pra representar a viagem do que " hEAVEN, iM IN HEAVEN..." Mais do que anestesiar, a fronteira entre realidade e ficção se rompe nesse filme... e Cecilia vive todas as vidas qeu nao pode viver atraves ( enquanto na plateia) e depois junto com os personagens...causando uma inversao de papeis, como no garçon que de repente começa a sapatear no meio do filme" não preciso mais servir as pessoas posso fazer o que sempre quis!"
    enfim Cecilia precisa fazer uma escolha, nas palavras do proprio Allen "Cecília precisava decidir entre escolher a pessoa real, o que era um grande passo para ela. Infelizmente , nós temos que escolher a realidade, mas infelizmente no final ela nos esmaga e nos decepciona.Minha visao da realidade é que ela sempre foi um lugar triste para estar...mas é o unico lugar onde voce consegue comida chinesa "

    Ibere
    http://ibererestivo.blogspot.com

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  6. Olá Jurdyney, parabéns pela sua idéia de escrever sobre filosofia e cinema, de fato há muitas conexões que podemos fazer entre arte e filosofia. Também escrevi um texto sobre esse filme, gostaria que o lesse e desse sua opinião!
    Este é o endereço para o texto:

    http://avemarinha.blogspot.com/2010/07/encantamento-e-imanencia-no-filme-rosa.html

    Abs!

    Carine

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  7. mandou bem o iberê... comida chinesa aqui na realidade né? kkk genial, genial

    essa leitura é uma leitura possível. mas vejo nesse filme um confronto mais entre realidade e fantasia - o modo como se dá a realide (frustrações, dor, medo,etc.) Como o iberê falou ae.. "fantasia x realidade" também creio que essa leitura esteja mais explícita no filme.

    E a desmistificação da realidade.

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